João Paulo Martins Escreveu:
mlpaiva Escreveu:
Já agora, Tomaz, mais uma questão: a temperatura.
Na minha cozinha, a temperatura média é bem superior a 20ºC e, na cave, andará pelos 16-18ºC. Suspeito que o processo será mais acelerado na cozinha.
Na generalidade, há condições ideais de temperatura, humidade, luminosidade
(no meu caso é indiferente), vibrações, etc.?
Thanx!

Faço minhas as palavras de um grande vinagreiro da nossa praça:
O melhor mesmo é colocar o barril ao ar livre onde possa apanhar frio e calor mas sem sol directo. É exactamente assim que os meus estão
JPM
Sem querer, de maneira nenhuma, desconsiderar o ilustre florista JPM nem o vinagrista da praça, acho isso muito perigoso.
Estas coisas não querem grandes variações nem choques térmicos. Querem ir andando, e ter condições para ir andando. As bactérias também stressam e a melhor forma de as stressar (deixando agora de lado o sulfuroso) é afectar-lhes o
sistema nervoso através da temperatura. Funcionam mal abaixo dos 15 C e acima dos 40. Julgo que as grandes vinagreiras industriais fazem o processo em poucos dias com temperaturas na ordem dos 30 C. Por isso acho que as temperaturas tanto da cozinha como da cave do Mlpaiva estão correctas. Claro que irá mais rápido na cozinha. Creio que dentro das temperaturas que dá, a diferença poderá estar na finesse aromática, quanto mais baixo, dentro desta baliza, mais fino será, mas também não creio que a diferença seja flagrante a nariz nu, nem que a qualidade final seja afectada.
Acho que o ideal será arrancar a fase inicial perto dos 20C, e depois manter uma temperatura constante, ou um pouco abaixo, ou um pouco acima, durante o resto do processo.
Uma baixa brusca ou uma subida brusca de temperatura, e variações constantes, afectam bastante o funcionamento das bactérias. E o abrandamento ou paragem pode afectar o resultado final.
Como disse no meu primeiro post deste tópico, há uma fase do processo em que as bactérias produzem acetato de etilo. Não é alarmante, antes pelo contrário, é bom sinal que a 1/4 da fermentação isto apareça. Depois desaparece, e é bom sinal também quando desaparece. Digamos, de uma forma simplista que é um ponto de passagem na produção do ácido acético. Se as bactérias são
importunadas com um choque térmico nesta fase, pode acontecer que quando retomam a
concentração não transformam o acetato de etilo, deixando-o presente. E se isto acontece, o aroma de acetato de etilo (descritor aromático: cola UHU) no vinagre final, é um defeito grave. Alguns dirão que isto é que é o vinagre a cheirar a vinagre, vinagre a sério, como à moda antiga. Podem dizer o que quiserem, não vai deixar de ser um defeito por causa disso. Também há ainda quem diga que o azeite a saber a azeite tem de cheirar a tulha e a ranço.
Quanto à luz, ao abrigo da luz. Se a vinagreira for em vidro, forre-a por exemplo com papel de alumínio.
Sobre a humidade, o importante é não haver bolores perto que possam contaminar o produto.
As vibrações, desde que o Mercalli e o Richter não se queixem, também não será por aí.
tVC
Tenho consciência que acabo de assassinar a ciência na descrição do perfil psicológico das bactérias acéticas. A ideia foi falar numa linguagem que toda a gente perceba, não tenho de maneira nenhuma a intenção de competir para um paripipi ou qualquer outro subsídio de investigação.
Mas se o insigne Engenheiro Químico do fórum me quiser ajudar a dar um pouco de rigor ao escrito acima, nomeadamente na parte do acetato de etilo, agradeço. Mas a ideia geral e o sentido do que quero dizer acho que ficou clara.