Tenho tido pouco tempo para responder, pois o encerramento gera tudo menos descanso para mim. No entanto, não posso deixar de agradecer todas as palavras amigas de apoio. Não resolvem a minha situação e tristeza mas dão força.
TomasFCabral Escreveu:
Se não é indiscreto perguntar, gostava de saber se vai agora seguir a tendência das "tabernas gastronómicas" ou de uma cozinha de autor mais apontado para um target classe media-alta. Pois são um segmento de mercado com bastante procura. E temos muitos casos de sucesso (Cantinho do Avillez, Cervejaria e Tasca da Esquina, Guilty, 1300 Taberna, Darwin's).
Esse é o conceito do momento. Está na moda, é bom e é agradável.
Se eu vou abrir um espaço neste segmento? A resposta é redondamente não!!!
Por um lado, porque o encerramento do Bocca me deixa um prejuízo pessoal muito avultado mas principalmente porque encerro o restaurante com um enorme sentimento de revolta. Enquanto este sector não for mais justo, não volto a fazer parte dele! É berrante a situação de tantos espaços que não facturam nem metade do que vendem, que têm o pessoal todo com ordenados mínimos declarados, que não cumprem com requisitos mínimos ao nível de equipamentos e condições gerais e que continuam abertos e a trabalhar como se nada fosse. E o que faz o estado? Complica ainda mais a vida aqueles poucos que tentam fazer as coisas o mais correctamente possível.
A única coisa que se alterou recentemente foi a obrigação dos bancos declararem as facturações em TPA (sim, porque muitos espaços tinham TPA's para contas pessoais), e a obrigação de ter sistemas certificados a partir dos 100.000 de facturação anual. Já aé lgo, mas onde estão as fiscalizações? De que serve um sistema informático certificado se os pedidos nem chegarem a ser introduzidos?
A realidade é não se fiscaliza in loco. Conheço vários espaços que nunca foram fiscalizados. Em mais de 4 anos eu tive 1 fiscalização económica e 1 da ASAE. A fiscalização económica, ao verificar que estava tudo correcto, disse-nos que o valor da multa, caso a caixa estivesse errada, seria inferior ao valor que estávamos a suportar de IVA nessa noite. E ASAE obrigou-nos a fechar todos os armários de utensílios dentro da cozinha, coisa que nem nos EUA (os maluquinhos da segurança e higiene) é obrigatório. Isto não é suficiente!
No início do ano o governo disse que o IVA pago nos restaurantes iria passar a ser dedutível em IRS. Isto seria óptimo pois as pessoas passariam a pedir factura (este sistema já foi utilizado anteriormente para as despesas médicas e teve um resultado enorme). Qual o resultado? Apenas se pode descontar uma percentagem ridiculamente baixa e tecto máximo é tão irrisório que ninguém liga. É um perfeito disparate!
Atenção. Não estou a dizer que só os incorrectos permanecerão abertos. Alguns justos irão sobreviver e desejo-lhe o maior sucesso do mundo. Mas, de grosso modo, vão pagar os justos pelos pecadores! Enquanto assim for, por muito que goste desta área, limitar-me-ei a ser cliente e espectador.