Fernando A Coelho Escreveu:
Caro José Avillez, (caros co-participantes no fórum, Cheers!)
olá em primeiro lugar obrigado pela participação. vou tentar comentar.
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É interessante esta possibilidade de lhe dirigir umas linhas. Possibilidade que agradeço à Revista de Vinhos - esperando se trate de ideia com continuidade e possam seguir-se outros enólogos, muito especialmente viticultores (categoria que em Portugal dir-se-ia ofuscada pelos enólogos) e chefes de cozinha: neste último caso e para manter a par condicio, a qualificar igualmente, e sempre, com 6 adjectivos. Vejamos, parafraseando o nosso anfitrião-moderador, se consigo formular qualquer coisa que seja “desafio certo que motive e estimule” um “pensador da gastronomia portuguesa hoje no mundo”.
Julgando indiscutível que a percepção que se tem das coisas em geral depende muito largamente do ponto de observação, dir-lhe-ei à guisa de apresentação que vivo fora do país há uns anos mais de um quarto de século. Qualificar-me-ia, quanto ao que nos reúne - que se me perdõe, aqui, o pomposo - como um “grand amateur”: não no sentido da pessoa que gasta cifras inconsideradas em restaurantes e colecciona vinhos como investimento, mas no sentido de que tenho desde meados dos anos ’90 procurado obter formação na área dos vinhos e da gastronomia (objectivo cuja concretização tem sido enormemente facilitada pela variedade e qualidade da oferta de formação nestas áreas aqui em Itália). Isto na perspectiva de que, para realmente apreciar, há em primeiro lugar que aprender a conhecer e a valorizar.
Aqui vão uns quantos tópicos e considerandos, que espero lhe pareça interessante comentar aqui ou ali, se e conforme entender:
a) Penso que a fraca expressão da cozinha de autor em Portugal (do ponto de vista da percepção externa não é uma questão de falta de reconhecimento, tal como pessoalmente vejo é uma questão de sair da cepa torta...) tem bastante que ver com o facto de muitos chefes não terem procurado viver experiências fora do país de duração suficiente para adquirir conhecimentos mais variados, sólidos, e um domínio de técnicas elaboradas de cozinha que a formação disponível em Portugal não fornecerá porventura de modo suficiente; refiro-me a verdadeiras experiências de trabalho, de pelo menos dois ou três anos cumulativamente, não a estágios de curta duração junto de chefes famosíssimos para pôr no curriculum;
Acredito que é de facto decisivo a experiência além fronteiras e o alaragamento dos nossos horizontes. existe alturas das nossas vidas profissionais que é necessário os dois ou três anos. outras penso que se bem aproveitadas experiencias de alguns meses e até semanas nos ajudam a crescer profissionalmente
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b) Um outro elemento que condiciona de modo significativo a cozinha de autor em Portugal é o modo de comer típico dos portugueses: o “português médio” (passe o muito abstracto do conceito) gosta de se empanzinar; começa desde logo com os paralelepípedozinhos de manteiga que se encontram em profusão na mesa de tudo o que é restaurante - é atacá-los sem demora e barrar copiosamente no pão, iniciando a refeição da pior maneira; e por aí fora: ingerem-se doses que mandam logo em tilt o requisito alimentar diário (e avante com o vinho, muitas vezes);
temos já grandes gastronomos e novos curiosos apreciadores de alta cozinha.
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c) Um terceiro elemento que me parece não favorecer a evolução da cozinha portuguesa de autor é o elemento de auto-complacência que me parece bastante difuso, não só nos media mas até, creio eu, junto de muitos chefes; ocorre-me um artigo de fins de Março 2010, de que se falou aqui no fórum: em composição que dispunha 12 chefes de cozinha em friso evocativo da Última Ceia de Leonardo da Vinci (coisa que devo dizer, pessoalmente achei de certo mau gosto...) dizia o artigo a certo ponto (sic): “Recém-chegados do Canadá, onde representaram Portugal no Festival de Montreal (uma das mais importantes iniciativas gastronómicas da América do Norte), os chefs (...) entretinham-se a conversar sobre a imagem que deixaram lá fora e tudo o que há a fazer para melhorar a nossa gastronomia. §Há quatro ideias a fixar: primeiro, temos um potencial em matérias primas como poucos países; segundo, esta coisa das espumas e dos fumos (leia-se, divagações espanholas), tem os dias contados; terceiro, a imagem de Portugal no exterior reflecte-se, negativamente, na percepção que os outros têm da comida portuguesa; quarto, os decisores políticos não percebem nada do assunto - Espanha recebe anualmente seis milhões de turistas à procura da sua gastronomia.”;
É verdade que espanha recebe muitos milhões ano pela sua gastronomia mas garanto que principalmente pela sua cozinha de vanguarda, espumas e fumos(que mesmo tendo os dias contados. Admito essa possibilidade) foram técnicas como essas que entreteram a imprensa e que potenciaram a divulgação do país.
sei que eu e muitos colegas meus temos feito o maior dos esforços para divulgar a nossa gastronomia lá fora... nem sempre é fácil
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d) Um modo talvez eficaz de dar visibilidade externa à cozinha portuguesa mais elaborada poderia seria um maior uso culinário, muito criterioso evidentemente, do vinho do Porto;
a construção de projecto sólidos de restauração em portugal com ambições internacionais será, a meu ver, a melhor maneira de promover, a nossa cozinha.
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e) Outro, na mesma linha, poderia ser um maior uso do mel (tanto na cozinha salgada como nos doces), tendo em atenção que o país tem um nº significativo de DOPs de mel;
f) Penso que a cozinha portuguesa de autor faria bem em procurar emancipar-se da dominante influência francesa e partir à descoberta do próprio substracto (que reside em primeiro lugar na gastronomia ibérica, mas também na gastronomia europeia da vertente sul de modo mais geral);
A cozinha francesa inspirou e está, de alguma maneira presente, em 90% das grandes cozinhas do ocidente. foram 5 séculos de monopólio culinário difícil de apagar
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g) Deixaria o tão falado ultimamente “melhor peixe do mundo” para outra ocasião...(será uma dádiva de Neptuno, mas declarar o próprio melhor...equivale a declarar o dos outros menos bom, matéria opinável e certamente do domínio do ainda não demonstrado!); mas por falar em peixe e considerando o pendor tão português para tudo o que se pode barrar, não poderia o José Avillez banir o “beurre persillé” e substituí-lo com patês, até de tipo vário, daqueles peixes azuis cheios de Omega 3? A coisa não passaria despercebida aos jornalistas, comunicá-lo seria bom uso da sua aura mediática a bem da pública saúde;
Chavões como esses "o melhor peixe do mundo" quer se concordo mais ou menos fizeram a espanha ocupar o lugar de destaque na gastronomia mundial.
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h) Alonguei-me...despeço-me com um pedido sobre matéria de extremo interesse para nós emigrantes: por favor, faça qualquer coisa pelos chouriços...tornou-se impossível encontrar morcelas, farinheiras e até alheiras que possam dar verdadeira satisfação...pagaríamos até o triplo!
É a pura das verdades mas as normas da comunidade eropeia e a guerra de preços têm de alguma maneira condicionado cada vez mais a produção de enchido de qualidade. principalmente para exportação poucos são os casos de qualidade aceitável.
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Agradeço-lhe a atenção e desejo-lhe felicidades
Reforço que os meus comentários são apenas a minha opinião.
obrigado, cumprimentos
JA
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Fernando A. Coelho