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Timidez, é cada vez mais a palavra para descrever este ano vitícola. Mas esta timidez vitícola não nos diz nada para já sobre a personalidade dos vinhos a que vai dar origem. Nada de nada. A floração foi muito longa. A vinha baralhou-se a meio, com a chuva e a baixa de temperatura, que obrigou em alguns casos a uma cura de prevenção, a meio da floração. Normalmente tenta-se evitar curar a vinha durante este período, curando-se quando se prevê que está prestes a começar, e fazendo uma enxofra no fim para ajudar a alimpa. Durante evita-se pois pode causar desavinho. Quem o fez poderá ter tido efectivamente alguma perda de bagos, mas evitou algum míldio e oídio muito indesejáveis nesta fase. Este tipo de análise de risco é cada vez mais importante em viticultura. Há uma grande diferença entre este ano e o ano passado: a humidade. A humidade foi muito baixa até fins de Junho. No ano passado foi altíssima, puro clima tropical, principalmente em fases muito críticas como a floração. Consequentemente, o míldio e o oídio que foram autênticos flagelos em 2011, dizimando parcelas inteiras e prejudicando muitas outras, este ano não chegou de um modo geral a ser um problema. Do que conheço, foi até um ano anormalmente baixo em termos de focos destas doenças. Mas isto deve-se à falta de humidade. Se tivesse havido humidade, o ano teria sido pelo menos tão mau como o ano passado. Há anos em que o "quem curou não teve problemas" não chega, como disseram alarvemente alguns enólogos de gabinete que só vão à vinha com o fotógrafo. O vento tem estado sempre presente, por um lado partindo varas e ajudando ao desavinho, por outro a circulação do ar impediu a concentração de humidade. Não há senão sem bela. Depois da floração, o crescimento da planta foi brutal, parecendo momentaneamente que tinha perdido a timidez. Boas temperaturas, um pouco de chuva, que não sendo suficiente, é sempre bem vinda nesta altura, ainda por cima vindo de noite e não de dia, deu origem a um período de crescimento praticamente isento de oídio. A atenção foi sobretudo para a bicharada que se estava a desenvolver, ano complicado para gerir a bicharada, o insecticida é caro para quem não se fia totalmente nos cházinhos dos pseudo-dinâmicos. Por altura do São João, o atraso que a vinha trazia desde o início do ciclo parecia estar completamente superado. Algumas castas pareciam mesmo prestes a começar o pintor, como de costume em algumas zonas do sul e das margens mais quentes do Douro. Mas vieram dois dias de calor extremo, e a vinha simplesmente pasmou. Pasmou, parou completamente qualquer actividade, e não foi só por dois dias, foi por mais de uma semana. E voltou a atrasar o que já tinha recuperado. Esta canícula também teve uma bela, e um senão. Por um lado durante estes dias houve sempre uma neblina muito ligeira, que fez de filtro solar e impediu um escaldão nos cachos que nesta altura teria sido terrível. Por outro causou o primeiro surto forte de humidade, aparecendo pela primeira vez problemas de oídio, também conhecido na gíria por mal-branco ou farinha. Mas mesmo assim, de um modo geral, sem gravidade por aí além, não se comparando sequer a um ataque normal de um ano normal, e tocando apenas nas castas mais sensíveis. A par do anti-oídio, foi também tempo de fazer um último tratamento para os insectos, a cicadela e a flavescência dourada há muito que deixaram de ser coisas só de alguns. O grão não pintou no São João, começou a pintar o bago uns dias antes do São Tiago, como é norma lá para cima e nas zonas mais frias. E logo a seguir, mais dois dias de brasa! , acima dos quarenta graus. Aqui já houve escaldão, que apesar de algumas coisas agudas, não foi tão grave como teria sido o de Junho se não houvesse o filtro. Agora já havia muita uva a iniciar o pintor, cujo amolecimento do bago protege naturalmente contra o escaldão. Mesmo assim fez alguma mossa, podendo mesmo considerar que estes foram os dias mais prejudiciais para a vinha este ano, exceptuando aquelas que foram dizimadas pelo granizo. Mais que o desavinho da floração, a quebra de produção a haver será por este escaldão. A parte boa aqui foi que este calor acabou de vez com os oídios mais teimosos que ainda persistiam. Ao contrário do calor do S. João, o calor do S.Tiago fez acelerar o pintor. Até ao pintor, há acumulação de ácidos na uva. Atingem nesse momento o seu máximo, e a partir daí vão transformar-se em açúcares e percursores aromáticos. Uma maturação lenta, dando origem a uma passagem lenta dos ácidos em açúcares e percursores aromáticos, vai ter reflexos positivos na qualidade final e na quantidade de ácidos restantes à vindima. Este ano, e não apenas contando os atrasos, o período até ao pintor tem sido mais longo que num ano normal. Isto dá que pensar no que serão os ácidos em termos qualitativos e quantitativos este ano. A Tinta Roriz/Aragonez/Tempranillo, que tem um ciclo muito curto e problemas de acidez, este ano só no pintor passou à frente de castas de ciclo longo como o Tinto Cão, quando num ano normal o faz a seguir à floração. Isto há-de querer dizer qualquer coisa. Os pássaros, que são um problema grave em algumas regiões, e que em castas como o Fernão Pires ou o Aragonez, atacam assim que o bago pinta, só agora, que estão a atingir o pleno pintor, se estão a atrever. Um dos sinais disto, e a prova de bagos pelos técnicos que não foram a banhos já o sugere, é que as uvas estarão mais ácidas que o costume. E os dias não estão demasiado quentes, e até há algum frio à noite. Algumas castas já estão em pleno pintor, já passando os 7-8 e começando a acusar à volta de 9 graus prováveis. Mas a maior parte ainda lá não chegou. E há castas brancas, como o Arinto, que estão mais atrasadas que a maior parte das tintas. Só depois do pleno pintor vale a pena começar a fazer o controle de maturação, mas a partir daí é obrigatório, uma vez por semana, acelerando mais à frente para duas ou mesmo três. Mas a prova de bagos de Fernão Pires que já atingiram os 12 graus, que já os há, aqui e ali salpicando cachos, deixa muito boas sensações em termos de componentes aromáticas, de um nível e de uma finesse que nunca vi nesta fase. Isto está mesmo atrasado. Alguma reza certeira daqueles técnicos ... não direi da tanga, mas dos que não dispensam a dita nesta altura. As primeiras regiões a começar a vindima, como o Tejo e as zonas mais quentes do Alentejo, costumam começar pela semana do 15 de Agosto, mais coisa menos coisa. Para já, creio que não haverá corte de uvas antes de 20, para não dizer mesmo 27. A excepção será quanto muito as bases para espumante, e o caldeirão de Beja. Mas creio também que o atraso será mais nas regiões precoces, porque as mais tardias creio que andarão todas pelo fuso horário do costume, 15 de Setembro. Mas tudo de repente se pode adiantar, ou atrasar ainda mais. A qualidade da subida de temperatura a partir de amanhã pode condicionar e baralhar tudo outra vez. Isto dá que pensar em vários aspectos, tudo no domínio da especulação. Os ranchos de vindima vão ser mais difíceis de gerir. Já há muitos, sobretudo no sul, que tem uma grande componente de estudantes em férias. Ora entrando a vindima por Setembro adentro, poderá haver problemas a partir daí. Por outro lado, um grande concorrente de pessoal das zonas vizinhas, tem sido a zona da pêra-Rocha, inclusivamente estragando os preços. Este ano pela amostra que se vê da borda a estrada, parece que a pancada não vai ser tão grande. Não há volta a dar. A vinte e poucos de Setembro, chove sempre. O que costuma ser visto como uma benesse, pois é uma chuva que a sul já só atinge o Castelão e outras castas tardias de casca rija, e ajuda ao amadurecimento final, e a norte atinge as tintas praticamente todas, com o efeito positivo descrito atrás, mas vem com os brancos já dentro da adega, com o atraso este ano, vai incidir numa fase muito crítica nas zonas onde normalmente se vindima mais cedo. Castas como a Trincadeira, de casca fina, cujo bago incha e rebenta se o espevitam demais, e outras atreitas à podridão, poderão vir a ter problemas. A chuva abençoada de Setembro a norte, é a que faz bem a sul nesta altura de Agosto. E que bem faria este ano. Há parcelas em grande esforço e stress hídrico extremo, e que bem beneficiariam de um pouco de chuva nesta fase da maturação. Quem pode e sabe regar vinha sem a ver como mais um clone de milho, saberá perceber as necessidades da cêpa e actuar em consonância. Agora em relação ao Aragonez de regadio e outros que tais, será apenas prolongar-lhe a agonia. Como disse uns posts atrás, o ano não é para grandes cargas. Cargas exageradas, para mais num ano deste, alimentadas a dose de cavalo, nunca irão amadurecer, a não ser ficticiamente por desidratação. Mais um choque térmico de 40 graus, como é provável que ainda aí venha, irá pura e simplesmente pasmar vinhas como estas. Muito importante também num ano como este, é saber gerir a parede e exposição foliar. Quem a soube perceber e fazer, teve grandes benefícios em termos de saúde e desenvolvimento da planta, e de minorar perdas com o escaldão. Em termos de quantidade, parece ser um ano médio, em alguns casos médio mais. Em termos fitosssanitários, excelente, talvez dos melhores de sempre, mas repito, bastava um fósforo de humidade para o ano ser péssimo. Em termos de componentes do bago da uva, a grande expectativa é como isto tudo se reflectirá em termos de acidez, percussão aromática, e taninos qualitativos. Até à vindima, há agora duas preocupações principais: o ataque dos pássaros, que até aqui tem, de um modo geral, estado mais tímidos do que a vinha, mas creio que ainda se vão atrever, até porque está a começar a campanha do tomate, que faz as moscas fugirem para a vinha, atraindo mais passarões (quando vão às uvas não há cá passarinhos) que as usam par lavar o travo doce das uvas e vice-versa; e um granizo traiçoeiro, do qual ninguém está livre e que pode acontecer a qualquer um quando menos se espera, deitando por terra em segundos um trabalho de um ano inteiro, e por vezes comprometendo os seguintes. Para já, resta aguardar, para no fim do jogo dar então os prognósticos sobre a personalidade dos vinhos que aí vêem. Enquanto houver uvas para apanhar nem tudo está perdido. Haja depois quem o beba.
tVC
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